Leituras do Último: O Conde de Abranhos

O Conde de Abranhos foi escrito por Eça de Queirós.


Tinha as expectativas elevadas. Foi-me recomendado por dois professores do Secundário e mais recentemente por um amigo. Digo-vos vale bem a pena. É um livro de crítica e sátira à classe política  do século XIX, mas podia ser de 2017.


 


História


A história é uma biografia do Conde de Abranhos, que chegou ministro da Marinha. É escrita pelo seu secretário, sempre muito elogioso e glorificador do Conde (ora não ficasse para a posteridade). É-nos relatado o percurso de vida, desde a família onde nasceu, a vida de estudante, a negação dos pais pobres e analfabetos, o casamento sem amor (ou melhor por amor ao dinheiro e aos amigos influentes do sogro), a ascensão partidária e na carreira, a esperteza dos "amigos" e  a nomeação a ministro, sem que perceba nada de Marinha.


 


Opinião 


As elevadas expectativas cumpriram-se.


Este livro é um deleite, relativamente curto  e o Conde Abranhos parece inspirado numa história real.


 


- Ironia


Os exageros, a vassalagem, o realismo cru na podridão política  e a crítica implícita são do melhor.


 


- O "ministro" que nega os pais pobres e plebeus


"Como estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer arroz com faca, a escabichar os dentes com as unhas, só serviria a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento". "Só receberia o pai em sua casa, com a condição de nunca aparecer aos jantares". Claro que a compaixão tinha de estar presente, como homem cristão, enviando a esmola ao pai plebeu.


 


- O abandono da amiga colorida grávida


O Conde estudou Direito em Coimbra e envolveu-se com uma empregada da casa onde estava hospedado. Esta engravidou e este ignorou-a, pois não tinha o estatuto nem lhe traria qualquer beneficio. "naquele espírito nobre sempre houvera horror a miseráveis".


 


- O casamento por interesse


É intencional o modo como é descrita a família e o que despertou o interesse do Conde na sua futura mulher. Uns sogros de feitio intragável e uma jovem desinteressante, mas com influência política e financeira que o ajudariam a subir na vida e carreira. 


 


- A aproximação interesseira ao padre


Para ganhar crédito de genro perfeito, o Conde foi viver para casa do padre, pois este tinha influência positiva na família. Todas as famílias influentes tinham o "seu" padre.


 


- Os meios para ser eleito deputado por Freixo de Espada à Cinta


Vivendo em Lisboa, renegando a familia de Penafiel e estudando em Coimbra, propuseram-lhe chegar a deputado por ... Freixo de Espada à Cinta: "tendo-se informado com cuidado dos nomes das pessoas influentes de FEC, a todas escreveu, oferecendo a sua influência, os serviços da sua eloquênicas e a sua casa" "Naturalmente logo que o conde foi nomeado Par do reino, esta benevolência findou e livrou-se para sempre "daquela cambada de carrapatos"".


 


- A ânsia do poleiro


Eis como é descrito o desejo de todos os que rodeiam o conde que ele chegue a ministro: " a pensão de reforma da D. Amália, o emprego do sobrinho da D. Joana, as ascensão canónica do Padre Augusto, os serviços do "Doutor", a ascensão social da esposa e da sogra à corte.


 


- A troca de favores na política


"Todos sabiam por compromissos antigos que a pasta da Marinha seria dada a Abranhos.


 


- A ascensão sem mérito


O conde era de Direito, mas foi nomeado Ministro da Marinha sem perceber nada da Marinha: "Notai que o Conde não era um Homem do Ofício". Só viu o mar aos 21 anos, tinha "antipatia" por ele", "sempre detestou o mar", "o horror do conde a navios era invencível", desvaloriza a geografia "nunca compreendeu cálculos estranhos de graus, latitudes e longitudes, nem dava grande crédito à ciência da navegação" e para perante uma gaffe de não saber onde ficava Moçambique (à época, colónia), diz "que fique na costa ocidental ou oriental, nada tira a que seja verdadeira a doutrina que estabeleço".


 


O livro é uma sátira à classe política do século XIX, mas podia ser de 2017, pois como o próprio dizia, as moscas mudam, mas a ... é a mesma. Portugal não evoluiu muito, pois conseguimos rever a classe política portuguesa, os "jotinhas" nesta personagem de fictícia tem muito pouco. Vale bem a pena!

Comentários

  1. Na generalidade, os nossos clássicos acabam sempre por encantar.
    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Ler Eça é ler a realidade, o "Conde de Abranhos" é só mais um exemplo.

    Um destes dias voltei ao S. Carlos e dei comigo a sentir o mesmo e a partilhar com quem estava comigo. Procuramos um local onde fosse possível assistir a algumas coisas e chegou-se à conclusão que nada mudou... A diferença é que hoje a Democracia substituiu a corte e a burguesia, por um sem número de... Fim... :-)))))

    ResponderEliminar
  3. A considerar nas minhas leituras! :)

    ResponderEliminar
  4. A nossa sociedade actual mais não é do que uma assustadora multiplicação de Condes de Abranhos e alguns ainda comem arroz com a faca e escabicham os dentes com as unhas como fazia o pai do Conde.

    ResponderEliminar
  5. Infelizmente, continuamos a ter muitos Condes de Abranhos!

    ResponderEliminar
  6. Estou em falta consigo. Venho agradecer-lhe as suas amáveis visitas e comentários e desejar uma boa semana. Eça... é sempre uma escolha acertada. E tão actual.
    Tudo de bom! Obrigada, mais uma vez pela sua simpatia.

    ResponderEliminar
  7. Isso é que é ao mesmo tempo surpreendente e triste: num século não evoluímos muito ao nível da classe politica.

    ResponderEliminar
  8. Num século , pouco evoluímos ao nível de classe politica.

    ResponderEliminar
  9. Passou-se mais de um século e os vícios da classe política portuguesa pouco ou nada evoluíram. é a grande conclusão que tirei do livro.

    ResponderEliminar
  10. Gostei muito do livro. é impressionante como continua atual e como os vícios continuam todos na classe politica: os compadrios, o lambebotismo,a pouca meritocracia nos grandes cargos politicos, etc.

    ResponderEliminar
  11. Desconhecia totalmente, mas pelo que contas, parece bem bom.

    Beijocas

    P.S: Sofá e móvel já sala já temos. O problema são as limpezas :P

    ResponderEliminar
  12. Parece interessante, já conhecia a obra... mas não a história ;)

    ResponderEliminar

  13. vale a pena, acredita!
    é deliciosa e tão real!

    ResponderEliminar
  14. Eça de Queiroz é o meu escritor português preferido.
    Foi um homem muito à frente do seu tempo, com um humor mordaz e como bem referes as suas obras refletem uma sociedade que podia ser perfeitamente um retrato actual.

    ResponderEliminar
  15. Há mesmo escritores intemporais. Já há muito que não o leio.

    ResponderEliminar
  16. É uma das minhas leituras recorrentes...os nossos maravilhosos clássicos!

    ResponderEliminar
  17. Concordo ctg. li este e Alves Redol de seguida e são os dois muito bons!

    ResponderEliminar
  18. Ontem como hoje, nada mudou. É tristíssimo constactar isto, mas esta é a verdade.
    Deve ser consequência de um problema genético, uma qualquer maleita que afectou os nossos genes. É que não há outra explicação para a "praga" de gente "boa" que tem feito história ao longo dos anos.

    ResponderEliminar
  19. Os maus vícios da classe política mantêm-se.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário